O Injusto Ainda te Assusta?

presidio bolivia
Presídio na Bolívia

Era Abril ou Maio de 2012. Dois seminaristas se preparavam com muita ansiedade para o próximo estágio de inverno que fariam juntos. Seria o primeiro internacional ou trans-cultural para os dois. O estágio seria com um ex-aluno do mesmo seminário que agora servia a Deus na Bolívia.

Finalmente o dia do embarque chegou e os dois partiram com bastante entusiasmo nas suas bagagens. Conheciam o missionário e sabiam que sua ênfase no campo era o tra-balho evangelístico através do esporte. Por três semanas iriam trabalhar com uma escolinha de futebol que também discipulava aqueles garotos de 6 a 14 anos.

Chegando a Puerto Suarez a impressão foi a melhor (apesar da grande pobreza, ruas de terra, pessoas de olhar desconfiado e triste). O trabalho começou logo, o primeiro contato com os meninos da escolinha foi excelente, outros trabalhos haviam para ser feitos (com a igreja local, no próprio bairro e no presídio).

Enfim chegou o dia de irem ao presídio. A carceleta de Puerto Suarez é pequena e abriga apenas algumas dezenas de presos. No caminho para o cárcere começaram a ser informados sobre a realidade interna, então vem o grande baque: ‘eu já disse pra vocês que tem crianças que moram no presídio?’ – foi o que questionou o missionário.

Como assim? Quem são essas crianças? Qual idade? Não existe FEBEM aqui na Bo-lívia?
Todas essas são perguntas normais, mas o choque maior vem com a informação: ‘eles não são menores infratores, simplesmente vivem lá porque os pais estão presos’.

O assunto é interrompido momentaneamente pela chegada ao destino, mas tão logo eles saem do presídio o assunto é recomeçado e o missionário compartilha das ações que já vinha executando e das que sonhava: ‘queria fazer um orfanato para tirar essas crianças de lá’. Essa frase ecoa até hoje e reverbera com a afirmação: ‘meu sonho é que não mais hou-vesse crianças em presídios bolivianos’.

Foi assim que eu conheci essa realidade a mais de três anos. Desde então a Expedi-ção Mochila conseguiu iniciar um orfanato e fez com que Puerto Suarez fosse a primeira (senão a única) cidade boliviana que não tem crianças encarceradas.

Depois desses anos parece que a notícia não agride mais meus ouvidos como na primeira vez. Mas a injustiça deve deixar de assustar? Como cristãos também devemos ser promotores de justiça e sabemos que crianças que tem liberdade tolhida pelo erro de seus pais certamente não é uma situação justa. Puerto Suarez tem apenas um pequeno presídio, quantos outros há em toda Bolívia? Números oficiais atestam que milhares de crianças vi-vem presas em todo o país. Isso te assusta? A injustiça te assusta? Eu e você podemos ser parte da promoção social no mundo.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.” | Mateus 5.6

Samuel Stroppa
Pastor na Igreja Batista Central de Campinas – SP
Cooperador EM

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *