O ORFANATO QUE VIROU DO AVESSO

*republicando daqui http://tilz.tearfund.org/pt-PT/resources/publications/footsteps/footsteps_101-110/footsteps_101/the_orphanage_that_turned_inside_out

por Rebecca Nhep

A mensagem de que o acolhimento residencial a longo prazo não constitui o melhor interesse dos órfãos e das crianças vulneráveis está se espalhando. Como resultado, muitos orfanatos ao redor do mundo estão se transformando em centros que oferecem serviços de fortalecimento familiar e comunitário. Esse processo é muitas vezes chamado de “transição”. Rebecca Nhep, diretora da ACC International Relief, descreve como essa mudança pode ocorrer.


Crianças em um programa para crianças com menos de cinco anos, em Mianmar. Os orfanatos podem fazer uma transição para a prestação de serviços comunitários, como este. Foto: Alice Keen/Tearfund

Mudança na maneira como prestamos assistência

Se você apoia ou dirige um orfanato ou centro de acolhimento infantil, a ideia de fazer uma transição para um programa familiar e comunitário pode ser muito assustadora. Ela suscita muitas perguntas, como: “Em que consiste uma transição?”, “Como posso ter certeza de que as crianças estarão seguras e receberão bons cuidados em uma família?”, “O que acontecerá com a educação ou religião da criança?, “O que meus doadores acharão?”, “O que acontecerá com nosso prédio, se não houver crianças vivendo nele?” e “O que restará do meu ministério quando não formos mais um orfanato?”

Às vezes, essas perguntas e preocupações parecem ser obstáculos que nos impedem de mudar. No entanto, com um bom planejamento, o apoio certo e processos bem desenvolvidos, você pode garantir que a transição seja eficaz e segura para as crianças. Além disso, na verdade, você verá seu programa ou ministério crescer em alcance e sucesso.

O programa Kinnected, da ACC International Relief, ajuda organizações locais e internacionais na transição de seus programas de acolhimento residencial. Ao longo dos últimos seis anos, trabalhamos com mais de 60 centros de acolhimento residencial, em 11 países diferentes.

A história do Pastor Myint Nwe mostra alguns dos passos-chave da transição. Este é apenas um exemplo de como o processo pode funcionar.

Perceber a necessidade de mudar

O Pastor Myint Nwe é o diretor da Caring and Loving Children (CLC), uma organização comunitária de Mianmar. Ele já foi responsável por cinco centros de acolhimento residencial espalhados pelo país. Muitas das crianças dos centros tinham parentes vivos, mas haviam sido encaminhadas à organização por motivos de pobreza extrema, morte de um ou ambos os pais ou outra situação de crise.

Ao longo do tempo, o Pastor Myint viu que o acolhimento residencial não é o ideal para as crianças. Ele percebeu que, sempre que possível, as crianças devem estar em uma família. No entanto, ele não era um especialista e não possuía os conhecimentos necessários para guiar os centros pelo processo de transição e reintegrar as crianças na comunidade. Assim, o Kinnected aceitou apoiar e orientar a CLC em sua transição para o acolhimento familiar.

Ponto a salientar: Estar convencido da necessidade de mudança é essencial.

Preparação dos participantes-chave

Primeiro, o Kinnected ajudou a CLC a pensar em preparar participantes-chave antes de fazer mudanças significativas. Estes incluíam doadores, membros do conselho diretor, funcionários, líderes comunitários e funcionários do governo local.

Ponto a salientar: é importante educar todos os envolvidos sobre a necessidade de transição para o acolhimento familiar e como ela pode ser feita. Enfatizar os benefícios para as crianças pode ajudar a convencer as pessoas.

Desenvolvimento da capacidade

O próximo passo que o Kinnected tomou foi desenvolver e fortalecer a capacidade do Pastor Myint como líder da CLC. Começando em 2013, ele fez uma visita de campo para se encontrar com outro parceiro do Kinnected que fazia um trabalho de fortalecimento familiar em um contexto semelhante. Isso o ajudou a perceber por si mesmo os benefícios de reunir as famílias, providenciar colocações em famílias de acolhimento ou com parentes e entrar para redes de pares.

Ponto a salientar: É importante que os líderes de orfanatos imaginem como seria a transição na sua comunidade. É provável que eles precisem de treinamento adicional em tópicos como proteção infantil, desenvolvimento infantil, gestão de casos, acolhimento familiar e monitoramento e avaliação. Eles devem criar vínculos com departamentos governamentais e outras organizações que trabalham com o bem-estar infantil para poderem trabalhar bem juntos.

Planejamento para a transição

Juntos, o Kinnected e a CLC desenvolveram um plano para a transição da organização. O plano incluía escrever sua missão, visão, pontos fortes, direção e metas futuras, resultados a serem medidos, atividades, recursos e áreas onde a CLC precisava aprender ou adquirir experiência. O Kinnected treinou os funcionários da CLC para garantir que eles apoiariam o processo e teriam o conhecimento e as habilidades certas.

Ponto a salientar: é vital desenvolver um plano de transição detalhado para a instituição. É importante contratar assistentes sociais e garantir que eles tenham as habilidades certas. Os profissionais podem precisar de treinamento em como trabalhar com crianças vulneráveis e seus cuidadores. Os tópicos podem incluir levantamento, avaliação, localização de familiares (maneiras de encontrar os parentes das crianças) e mapeamento dos serviços disponíveis.

Etapas da transição

Sempre que possível, o Pastor Myint rastreava os familiares das crianças sob seus cuidados. Ele e sua equipe, então, analisavam sua adequação e disposição para oferecer o acolhimento adequado.

O Pastor Myint sabia que a pobreza era o motivo pelo qual algumas das crianças haviam sido colocadas nos centros de acolhimento institucional. Assim, ele ajudava os familiares a iniciar pequenos negócios, como alfaiatarias, mercearias e criação de animais. As famílias também podiam ser vinculadas a sistemas de apoio ou outros serviços comunitários.

O Pastor Myint começou com três orfanatos onde a igreja doadora tinha grande interesse em fazer a transição. Havia um total de 53 crianças nestes centros. Até agora, ele já reintegrou duas crianças de volta em suas famílias biológicas e 22 com parentes. Dois outros adolescentes mais velhos passaram para uma a vida semi-independente.

Ponto a salientar: É importante manter as crianças seguras ao longo do processo. As famílias devem ser devidamente avaliadas antes de receberem uma criança. Reintegrar as crianças em sua família original é o ideal, mas se isso não for seguro ou adequado, devem-se explorar outras opções. Estas podem incluir o acolhimento por parentes, famílias de acolhimento e adoção.

É desenvolvido um plano de assistência com cada criança e para cada criança, destacando o que precisa ser feito para prepará-la para o acolhimento. Depois disso, é criado um plano de apoio familiar. O plano faz uma lista das mudanças e apoio necessários para permitir que a criança e a família façam uma transição bem-sucedida.

O Pastor Myint e o assistente social da CLC monitoram regularmente todas as crianças que foram colocadas em famílias. O processo de monitoramento torna-se menos frequente ao longo do tempo nas colocações que estão funcionando bem, até que o caso da criança seja encerrado. Este processo leva pelo menos 12 meses, às vezes, mais. O monitoramento é feito pessoalmente, às vezes com telefonemas entre as visitas (especialmente no caso de crianças em áreas remotas). Se as visitas revelarem a necessidade de apoio adicional, os assistentes sociais organizam a ajuda necessária.

Ponto a salientar: Depois que as crianças são reintegradas em suas famílias, o monitoramento é vital para garantir que a colocação seja estável e a criança esteja segura.

A CLC já fechou completamente seu primeiro orfanato. O orfanato fez uma transição para clínica de saúde familiar e centro de aprendizagem comunitária. O centro oferece treinamento profissionalizante, que ajuda os membros da comunidade a encontrar emprego ou iniciar seus próprios pequenos negócios. Isso pode ajudar, antes de tudo, a prevenir o colapso da família.

O Pastor Myint também criou um serviço de emergência de acolhimento para oferecer acolhimento temporário às crianças abandonadas ou abusadas. Essas crianças são encaminhadas pela polícia local ou pelos líderes comunitários. O Pastor Myint e seu assistente social, então, iniciam o processo de rastreamento familiar e avaliações. Eles procuram encontrar uma colocação familiar adequada e segura para a criança, através de reintegração familiar, acolhimento por parentes ou famílias de acolhimento.

Ponto a salientar: Quando os centros de acolhimento residencial fazem a transição, os prédios e recursos podem ser usados para prestar serviços de fortalecimento familiar e comunitário.

Parcerias

O Pastor Myint agora é um defensor do acolhimento familiar e compartilha suas experiências com outros diretores de orfanatos. Ele faz parte do grupo de trabalho de assistência alternativa em Mianmar.

Rebecca Nhep é co-Diretora Executiva e Chefe de Programas Internacionais da ACCI Relief.

Site: www.kinnected.org.au
E-mail: info@kinnected.org.au
Endereço: 5/2 Sarton Road, Clayton, Victoria 3168, Austrália
Telefone: +61 3 8516 9600

Este artigo foi parcialmente adaptado a partir do documento Replicable models for transition to family-based care (Modelos replicáveis para a transição para o acolhimento familiar) da CAFO. Veja www.cafo.org/resource/replicable-models-for-transition-to-family-based-care

Esdras e o resgate de crianças em risco — devocional setembro

Esdras e o resgate de crianças em risco
Lendo Esdras, entramos no mundo após o exílio judaico. O texto fala do duro, porém esperançoso, período da volta do cativeiro do povo de Israel. As carências dos israelitas ao voltarem do exílio e sua necessidade de um recomeço me lembram muito a vulnerabilidade e o clamor silencioso por socorro em que vivem crianças em situação de risco no mundo todo. A reação do povo – suas prioridades e sua unidade – e os desdobramentos da restauração e o resgate realizados pelo SENHOR DEUS me parecem ter um bom ensino para nós da Expedição Mochila.

Prioridade
Esdras 3 é o momento que o povo volta do cativeiro e encontra suas cidades destruídas. Em Jerusalém, eles se reúnem e começam a reconstrução do altar no templo. É a primeira coisa que eles fazem, antes mesmo de reconstruir o templo. Observando os versículos 3, 6 e 8 vemos que o altar foi restaurado e o serviço de holocaustos começou mesmo em meio aos escombros da destruição do antigo templo, mesmo ainda sem os muros da cidade (que só foram reconstruídos mais tarde com Neemias), mesmo sob a iminente ameaça de inimigos que ainda habitavam a desolada Jerusalém. Eles entenderam a importância de priorizar o mais importante. Sendo redundante mesmo, eles priorizaram o que é prioritário.

Unidade
Recomeços são difíceis e, como muita coisa na vida, estar junto é melhor que estar sozinho. Esdras 3.1 diz que o povo se reuniu como um só homem. Apesar de serem muitos, eles agiram como se fossem um. O que será que ele observou, ouviu, percebeu, para descrever que todos se reuniram como um só homem? Com certeza viu um único movimento de todos na mesma direção. Uma unidade que apontava para Deus e não para os homens. Talvez por isso, a primeira coisa a fazer foi restaurar o altar para os sacrifícios e holocaustos, algo que demonstrava a atenção com Deus antes mesmo de reconstruir outras coisas que demonstrassem cuidado com eles mesmos, como os muros da cidade ou suas casas. A unidade que aponta para o SENHOR DEUS e prioriza as coisas certas, é fundamental!

Restauração e Resgate
O retorno do cativeiro foi considerado a boa mão do Senhor para o resgate de seu povo. O exílio foi uma dura lição para Israel. Mas eles tinham esperança e o retorno prometido por Deus estava acontecendo. Deus ama restaurar e resgatar as vidas, ainda que não entendamos completamente porque Deus permite o mal e o desvio, temos certeza que Ele ama a restauração. Na história do povo de Israel está muito claro o motivo do castigo e do caos: foi o pecado do povo! Nem sempre, entendemos o porquê do caos quando saímos do contexto de Israel antigo e pensamos no mundo hoje. Porque tanta desgraça com a infância? Não temos a resposta exata do porquê disto tudo.

Uma dica é entender que a humanidade caída e afastada de Deus não cuida de Sua criação como deveria, e as crianças entram nesta história. A maldade do homem causa o caos na vida de muitas crianças. Eu não usei o texto de Esdras para buscar uma justificativa para o caos na infância do mundo hoje, mas sim para afirmar que Deus ama o resgate e a restauração. O pecado de Israel faz parte da história em Esdras e Neemias e nos ajuda a entender toda a trama na época. A primeira lição para nós aqui na Expedição Mochila é lembrar que Deus tem prazer em que as vidas sejam restauradas e resgatadas.

Prioridade e unidade para o resgate e a restauração de crianças em risco
Muitas crianças no mundo vivem o caos em suas vidas, e Deus quer restaurá-las e resgatá-las. Podemos ter esperança, pois Deus quer fazer algo por elas. A segunda lição é que Deus quer nos usar! Não sabemos porque Deus permite que aconteça isso com as crianças e quero sugerir que troquemos a especulação pelo trabalho. Ele tem prazer na restauração de vidas. Vamos trabalhar juntos pelas crianças em risco!

Em Esdras vemos Deus usando pessoas, que souberam se unir e priorizar. Deus usa pessoas no Seu trabalho de resgatar as crianças. Não vamos mudar o mundo e nem salvar a todas elas, mas se soubermos priorizar as coisas certas e nos unirmos, vamos resgatar muitas crianças. É uma pena saber que não vamos mudar a vida de todas as crianças do mundo, mas um alívio saber que Deus quer nos usar para restaurar a vida de algumas delas. Nós começamos com algumas crianças que vivem nos presídios bolivianos.

Deus usa algumas pessoas como instrumentos de sua restauração para o benefício de muitos. Não podemos ficar parados apenas observando ou especulando sobre as tamanhas atrocidades com as crianças, temos que fazer algo. Temos que nos juntar a Deus no Seu trabalho de resgatá-las. As crianças em risco precisam mudar de vida e conhecer o amor de Deus.

Quero desafiar você a se unir a nós na Expedição Mochila para priorizarmos o cuidado e o resgate da infância. A Expedição Mochila está entrando em uma nova fase e precisamos de você! Juntos somos mais fortes, e o mais importante, juntos podemos mostrar Cristo ao mundo através da mensagem do Evangelho e o trabalho de resgate das crianças em risco.

Veja como participar:
➔ Venha para nossa reunião em São Paulo, queremos te conhecer, ouvir suas ideias, orar junto. Temos um culto e depois um bate papo, as reuniões acontecem sempre na última sexta do mês*;
➔ Ore pelas crianças nos presídios bolivianos e espalhe a causa entre seus amigos;
DOE para o socorro das crianças que vivem nos presídios na Bolívia, faça sua doação única ou seja mantenedor.

Ricardo Silva — Ricco
Pastor e Coordenador Expedição Mochila
contato@em.org.br | 011-98990-8190 (Claro, fone e whatsapp)

[*] A reunião será na Igreja Ministério Água Viva, em Pinheiros, São Paulo, bem próximo da Estação de Metrô Fradique Coutinho, linha amarela. Rua Mourato Coelho, 747, Pinheros, CEP 05417-011, SP. Veja aqui no facebook todos os detalhes do nosso culto de setembro.

O Injusto Ainda te Assusta?

presidio bolivia
Presídio na Bolívia

Era Abril ou Maio de 2012. Dois seminaristas se preparavam com muita ansiedade para o próximo estágio de inverno que fariam juntos. Seria o primeiro internacional ou trans-cultural para os dois. O estágio seria com um ex-aluno do mesmo seminário que agora servia a Deus na Bolívia.

Finalmente o dia do embarque chegou e os dois partiram com bastante entusiasmo nas suas bagagens. Conheciam o missionário e sabiam que sua ênfase no campo era o tra-balho evangelístico através do esporte. Por três semanas iriam trabalhar com uma escolinha de futebol que também discipulava aqueles garotos de 6 a 14 anos.

Chegando a Puerto Suarez a impressão foi a melhor (apesar da grande pobreza, ruas de terra, pessoas de olhar desconfiado e triste). O trabalho começou logo, o primeiro contato com os meninos da escolinha foi excelente, outros trabalhos haviam para ser feitos (com a igreja local, no próprio bairro e no presídio).

Enfim chegou o dia de irem ao presídio. A carceleta de Puerto Suarez é pequena e abriga apenas algumas dezenas de presos. No caminho para o cárcere começaram a ser informados sobre a realidade interna, então vem o grande baque: ‘eu já disse pra vocês que tem crianças que moram no presídio?’ – foi o que questionou o missionário.

Como assim? Quem são essas crianças? Qual idade? Não existe FEBEM aqui na Bo-lívia?
Todas essas são perguntas normais, mas o choque maior vem com a informação: ‘eles não são menores infratores, simplesmente vivem lá porque os pais estão presos’.

O assunto é interrompido momentaneamente pela chegada ao destino, mas tão logo eles saem do presídio o assunto é recomeçado e o missionário compartilha das ações que já vinha executando e das que sonhava: ‘queria fazer um orfanato para tirar essas crianças de lá’. Essa frase ecoa até hoje e reverbera com a afirmação: ‘meu sonho é que não mais hou-vesse crianças em presídios bolivianos’.

Foi assim que eu conheci essa realidade a mais de três anos. Desde então a Expedi-ção Mochila conseguiu iniciar um orfanato e fez com que Puerto Suarez fosse a primeira (senão a única) cidade boliviana que não tem crianças encarceradas.

Depois desses anos parece que a notícia não agride mais meus ouvidos como na primeira vez. Mas a injustiça deve deixar de assustar? Como cristãos também devemos ser promotores de justiça e sabemos que crianças que tem liberdade tolhida pelo erro de seus pais certamente não é uma situação justa. Puerto Suarez tem apenas um pequeno presídio, quantos outros há em toda Bolívia? Números oficiais atestam que milhares de crianças vi-vem presas em todo o país. Isso te assusta? A injustiça te assusta? Eu e você podemos ser parte da promoção social no mundo.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.” | Mateus 5.6

Samuel Stroppa
Pastor na Igreja Batista Central de Campinas – SP
Cooperador EM

[re-postando] O poder da oração no resgate de nossas crianças

Fonte: http://www.redemaosdadas.org/maos-dadas/ed-8-intercedendo-por-nossas-criancas/capa/o-poder-da-oracao-no-resgate-de-nossas-criancas/

Trabalhadores do reino de Deus, em geral, e aqueles, especificamente, voltados para o resgate de crianças em situações deploráveis são, normalmente, pessoas práticas e muito ativas. Não dá para ficar assistindo às atrocidades sem que façamos algo e já. Não é difícil ouvir também pessoas que assistem ao nosso ativismo dizerem: “O trabalho que vocês estão fazendo é lindo!” No entanto, a beleza do que se vê depende da força do que não se vê. E, se não valorizarmos essa vida interior de submissão ao nosso Rei, por hora invisível, correremos o risco de ter nossos esforços reduzidos à palha que o vento leva. Precisamos insistir com nossas igrejas para que orem por nós, precisamos nos unir como equipes de trabalho em oração e precisamos interceder pelas crianças e seus familiares que Deus vai trazendo para perto de nós. Pedimos então a um veterano da oração e do trabalho de resgate de crianças e adolescentes que nos exortasse quanto a importância da oração.

Por que o trabalho evangélico para a redenção das crianças e dos adolescentes carentes não tem um progresso maior? Certamente não desconhecemos a principal razão. É que oramos muito pouco nesse sentido. Essas crianças e esses adolescentes carentes ocupam um espaço pequeno no tempo que gastamos em oração e intercessão. E na obra do Senhor produzimos o que oramos. A oração move o braço do Senhor e move também o nosso braço. Do Senhor vem a graça, a sabedoria, a unção e os recursos. A nossa parte é recebermos graça e unção para nos movimentarmos a fim de que aconteça aquilo por que estamos orando.

O poder da oração para a libertação de crianças e adolescentes
Temos dois programas de Liberdade Assistida, um em Sorocaba, SP, e outro na Zona Norte da capital de São Paulo. Lidamos com centenas de adolescentes que cometeram pequenos delitos; alguns mexem com drogas. Em geral, eles vêm de famílias muito pobres ou mesmo miseráveis.

Todos os dias um grupo se encontra na sala de oração da nossa igreja e, durante uma hora, luta contra as forças do mal. Não é uma reunião para fazermos pedidos a Deus. É um encontro de oração no qual tomamos as armas que são “poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4,5). Armamo-nos com o poder da armadura de Deus sobre nós: o cinto da verdade, a couraça da justiça, o escudo da fé, a preparação do evangelho da paz, o capacete da salvação e a espada do Espírito. Insistimos que as crianças e os adolescentes com os quais trabalhamos sejam livres do poder do mal. Temos visto efeitos positivos de todo esse esforço.

Despertando para a oração
Se tivermos um movimento de oração em favor das crianças e dos adolescentes carentes do Brasil, muitos serão libertos. Eles podem ser transformados em pessoas integralmente saudáveis. O poder de Deus é capaz de operar esse milagre. Mas é preciso que nós — os filhos de Deus — nos apresentemos para sermos os canais através dos quais o poder de Deus vai operar na vida deles.
Por que não exercitamos o poder e a autoridade de Deus que estão em nós? Por que a igreja no Brasil não se levanta em uma cruzada de oração em favor de nossas crianças e nossos adolescentes?
Precisamos lembrar sempre que, na obra do Senhor, produzimos o que oramos. Com isso em mente, sejamos movidos a orar mais, com muito mais intensidade. Assim, coisas grandiosas acontecerão com os pequeninos cujo sofrimento diário entristece o coração de Deus, que precisam tanto do nosso trabalho a seu favor.

Uma ONG movida a oração
A Associação Evangélica Beneficente Vale da Bênção, fundada pelo pastor Jonathan Ferreira dos Santos, se destaca pela maneira como prioriza a oração no dia-a-dia da organização.

Quem ora? Todos os trabalhadores do Vale da Bênção envolvidos nas diferentes áreas: seminário, eventos, administração, escola e Cidade da Criança.

Quando? São três programas de oração: a Vigília de 24 Horas de Oração — todos têm uma hora e meia por semana de oração para cumprir na escala; o Sentinela de Oração — cada participante ora durante 6 horas uma vez por semestre no Centro de Oração; e o Esforço de Oração, reservado para datas especiais — 36 horas ininterruptas de oração por um assunto específico.

Onde? No Centro de Oração, construção cercada por árvores e jardim, destinada com exclusividade à oração.

Organizada por quem? Uma pessoa fica responsável para coordenar os programas de oração. Ela cuida da organização lembrando a todos de seus horários e cobrando o seu cumprimento.

Como? Quando chega ao Centro de Oração, a pessoa encontra duas pastas de oração. Uma contém pedidos gerais relativos aos ministérios da AEBVB. A outra contém pedidos relacionados ao trabalho missionário transcultural. Há também pedidos de oração e agradecimento nos quadros afixados na parede.

Dificuldades? A maior dificuldade é a falta de disciplina. No começo as pessoas acham que não vão ter assunto para uma hora e meia. Ficam cansados e com sono. Outros não conseguem priorizar a oração e faltam no seu horário.

Por que continuam? A princípio, porque há uma insistência vinda de cima. Quem descumpre os horários recebe um bilhete, uma reprimenda. Depois vêm as experiências de maior comunhão com Deus seguidas por uma melhor visualização das respostas às orações, até que a consciência de que a vitória depende da oração se torne inabalável.

Quer mais?
Por que é mais fácil orar pelas crianças do que orar com as crianças?, de John Collier — uma reflexão sobre a importância de engajar a criança em oração e vê-la como um ser capaz de orar a Deus em favor de si mesma e de outros.

À Imagem e Semelhança, de Elsie Gilbert — um acróstico com as palavras IMAGEM e SEMELHANÇA, que serve como marcador de livro e um lembrete para orarmos pelas crianças pedindo não só o essencial, mas também a plenitude de vida que Deus planejou para elas: serem como Cristo.

Como estamos orando hoje em dia — entrevista com o pastor Ariovaldo Ramos sobre sua prática pessoal e suas preocupações sobre as práticas atuais da oração. Dificuldades Pessoais com a Oração, de Elben M. L. César — uma confissão franca de um veterano na oração que ousa perseverar.

Livros sobre oração — preparamos uma lista de livros que tratam do tema “Oração”. São publicações com as mais diferentes abordagens e ênfases para você aumentar seu conhecimento sobre o assunto.

Sobre o autor(a): Jonathan Ferreira dos Santos é pastor e diretor-fundador da Associação Evangélica Beneficente Vale da Bênção, em São Paulo.

Participação do Samuel no Basecast sobre contextualização

O Samuel, que é Pastor na Igreja Batista Central de Campinas e cooperador da Expedição Mochila, participou de um podcast sobre contextualização. Vá para a página do Basecast para ouvir, clique aqui.

Ricardo Silva
Coordenador EM
Missionário na Bolívia

Ministério e coisa séria

Um professor meu no seminário tinha um bordão interessante. Ele dizia: “ministério é coisa séria”. Parece algo tão simples, mas nem sempre tem sido simples na prática. Muitas vezes tenho notado pessoas divididas no ministério, tentando equilibrar alguma carreira e o serviço ministerial. Na prática, o que tenho percebido, é que o serviço ministerial fica relegado a um segundo plano. O que podemos aprender com a experiência de Eliseu, por exemplo? Quando este foi “vocacionado” deixou tudo para trás de uma maneira definitiva.

Então Elias saiu de lá e encontrou Eliseu, filho de Safate. Ele estava arando com doze parelhas de bois, e estava conduzindo a décima-segunda parelha. Elias o alcançou e lançou a sua capa sobre ele. Eliseu deixou os bois e correu atrás de Elias. “Deixa-me dar um beijo de despedida em meu pai e minha mãe”, disse, “e então irei contigo. “Vá e volte”, respondeu Elias, “pelo que lhe fiz. ” 21 E Eliseu voltou, apanhou a sua parelha de bois e os matou. Queimou o equipamento de arar para cozinhar a carne e a deu ao povo, e eles comeram. Depois partiu com Elias, e se tornou o seu auxiliar. (1Rs 19.19-21)

Talvez ao longo da “carreira profética” Eliseu pensou que poderia fazer um “bico” na época da plantação, somente para levantar recursos para o seu ministério, porém ele já não mais tinha as ferramentas necessárias. Eliseu precisou aprender que o necessário era muito pouco (2Rs 4.10) e que o ministério era tão sério que não permite divisão de atenção.
Ministério é coisa séria, é uma excelente obra. Quem ingressa por esse caminho não pode e não deve ficar olhando atrás.

Samuel

Liberdade

livre

E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (João 8.32)

Não sei contar quantas vezes ouvi a expressão: “agora que sou cristão, sou livre”, ou algo parecido com isso. Essa afirmação é quase verdadeira e se olharmos para o texto de João acima podemos até ficar convencidos. Porém, o que e de que está incluído nessa tal liberdade?

Quando ouço pessoas falando sobre liberdade cristã, basicamente estão afirmando que o cristianismo não está relacionado a regras, a padrões. Novamente eu afirmo, isso está quase certo (Romanos 7.6), mas não significa que não existe uma maneira correta do cristão viver. Não podemos, por outro lado, pender para a libertinagem.

O que eu tenho visto na prática cristã de muitos indivíduos e de muitas igrejas é a predominância das opiniões próprias, o famoso “achismo”. Isso também não tem nenhuma ligação com o ensino neo-testamentário sobre a vida cristã. O fato de que a verdade nos liberta do pecado não implica em falta de parâmetros.
Romanos 6.16-18 é um ótimo referencial e incentivo para vivermos a vida cristã do único jeito possível, do jeito de Cristo:

Não sabem que, quando vocês se oferecem a alguém para lhe obedecer como es-cravos, tornam-se escravos daquele a quem obedecem: escravos do pecado que leva à morte, ou da obediência que leva à justiça?
Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, pas-saram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram liber-tados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.

Liberdade sim, mas liberdade do pecado, da escravidão do pecado. Mas ainda assim servos, mas agora servos de Deus para praticar as obras de justiça.

Samuel

Ser ou ter: eis a questão

amor-dinheiro

Hoje em dia o que mais se ouve nas igrejas é que devemos ter bênçãos. A teologia da prosperidade propagou a ideia de que sua espiritualidade deve ser medida pelo seu sucesso financeiro e material. Ter bênçãos materiais é a prova de que você é um cristão piedoso e caminha muito próximo ao Mestre.

Tenho muita dificuldade de crer assim e não consigo encontrar embasamento bíblico para um pensamento desse modo. Neste espaço reduzido não temos o propósito de fazer um estudo exaustivo sobre o assunto, mas creio que será útil olharmos para apenas um texto e tirar dele duas lições específicas.

Gênesis 12.1-2, diz: Ora, disse o Senhor a Abrão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma benção! (…)

Neste texto podemos ver que Deus declara para seu servo que a medida da sua espiritualidade seria o quanto ele abençoaria outros. Isso até traria benefícios a Abrão, mas por outro lado exigiria dele algumas atitudes.

1. Quem quer ser uma bênção precisa estar disposto a deixar a zona de conforto
Pode ser que Deus nunca peça para que você saia do seu país ou seja um missionário. Mas para sermos bênção, certamente teremos que abrir mão de coisas. Isso pode incluir algum conforto, seu tempo, momentos de lazer. Você terá que deixar o eu de lado para se envolver com o outro.

2. Ser uma bênção vem antes dos benefícios
Se você conhece um pouco da história de Abrão (se não conhece seria bom ler a respeito), verá que das três promessas feitas por Deus ao seu servo, duas ele não viu ser integralmente cumprida. Abrão morreu com uma família pouco extensa e não tinha um nome ainda famoso, se compararmos com o que veio a ser hoje sua descendência e seu nome (importante para as três grandes religiões monoteístas do mundo). Isso nos ensina que devemos ter paciência e que precisamos compreender que as respostas nem sempre serão como imaginamos.

Então? Você está preparado para ser uma bênção, sabendo que esta é a atitude correta de quem já tem uma grande benção, a vida eterna?

O que tem ocupado mais o seu pensamento e seus esforços na vida cristã: ser ou ter uma bênção? Medite nessa palavra e hoje mesmo passe a abençoar mais os outros e deixe Deus se preocupar em como e quando te abençoar.

Samuel

Autossuficiência ou Dependência?

bono

Paul David Hewson é o verdadeiro nome do homem conhecido como Bono Vox, o vocalista e líder da banda irlandesa U2. Aos 53 anos de idade ele deve ser uma das personalidades mais conhecidas em todo mundo. Em parte por seu sucesso como músico (é o segundo mais rico do mundo, já vendeu mais de 150 milhões de discos e ganhou mais de 20 prêmios Grammy), mas também por seu engajamento social.

A preocupação social de Bono Vox rendeu ao irlandês outros títulos importantes, tais como: cavaleiro honorário da coroa inglesa, personalidade do ano pela revista Time, a medalha de Comandante da Ordem das Artes e Letras (mais alta condecoração cultural da França), além de ter sido indicado ao Nobel da Paz por três vezes.

Porém, todo seu reconhecimento, influência e fortuna não o impediu de dizer: “some-times you can’t make it on your own” (algo como: às vezes você não pode fazer por você mesmo). Essa frase é o título e refrão de uma música do álbum lançado em 2004 e foi composta em homenagem ao seu pai que morrera de câncer em 2001. Essa frase é realmente interessante. Pois apesar de parecer um sinal de fraqueza, demonstra muito o pensamento autossuficiente em que vivemos. Pensamos que temos controle de tudo, ainda que possamos até admitir que de vez em quando as coisas possam sair do nosso controle.

Na verdade a Bíblia nos ensina em Tiago 4.13-15 que nós podemos até planejar, mas os planos só se concretizarão se Deus permitir. Não podemos achar que na maioria das vezes podemos fazer tudo do nosso jeito, nem às vezes podemos fazer do nosso jeito. Nossos dias estão contados diante de Deus (Jó 14.1-5), o que precisamos aprender é aproveitar cada um deles para a honra e glória do Criador (Salmo 90.12 e Efésios 5.16).

Tenha consciência que só Deus pode sempre fazer por ele mesmo! Então, vivamos a dependência no lugar da autossuficiência.

Samuel

Grande comissão ou grande omissão?

Diante do desafio que Cristo nos deu em Mateus 28.18-20 uma pergunta me vem a mente: você quer ser participante da grande comissão ou da grande omissão? Talvez a nossa resposta estará baseada no que compreendemos desta responsabilidade que nos foi dada.

Para que fique mais claro, quatro pontos devem estar bem definidos.

1. A autoridade da nossa missão
No versículo 18 vemos que o Mestre inicia seu discurso demonstrando de onde procedia a autoridade para a ordem que seria dada. A autoridade de Cristo está tanto sobre os seres espirituais (anjos e demônios) quanto sobre os governantes temporais (autoridades terrenas instituídas). Ainda mais, está sobre os que se chamam seus servos, os cristãos. Diante de tal autoridade não há espaço para argumentações e racionalizações, somente há espaço para obediência.

2. O âmbito da nossa missão
No início do verso 19 Jesus vai delimitar o âmbito de nossa missão e este não é realmente muito limitado. Devemos fazer discípulos de todas as nações. Nesse sentido não podemos nos limitar as centenas de nações independentes atualmente reconhecidas pela ONU (o que já seria um grande desafio), mas temos que entender que Cristo declarou que o âmbito são todas as etnias, o que aumenta o nosso escopo de centenas para milhares, pois temos que considerar todas as línguas distintas, todas as culturas distintas e todos os grupos étnicos distintos. A missão realmente é enorme.

3. A atitude da nossa missão
Depois então vemos qual deve ser nossa atitude. Como igreja nossa atitude deve ser diferente da que teve Israel. Não devemos reproduzir uma determinada cultura, mas temos que entender que o cumprimento da nossa missão é supra cultural. Discipular significa tornar alguém submisso à disciplina. Discipular significa motivar à identificação com o Deus trino. Discipular significa promover obediência sem reservas. Algumas dessas atitudes respeitam as diversas culturas étnicas, outras exigem obediência exclusiva à cultura do Reino.

4. O amparo da nossa missão
Para concluir, a segunda parte do verso 20 nos consola. Se você tem sido cristão (não importa a quanto tempo) certamente você já experimentou esse “estarei convosco” na sua vida. Se olharmos sinceramente para a história e percebermos como o trabalho de missões e como a história da igreja foi preservada ao longo das eras, facilmente veremos a mão soberana de Deus agindo. Além disso, podemos ter a confiança de que este amparo só acabará com a vinda daquele que prometeu estar ao nosso lado.

Reconheço que é difícil o âmbito e a atitude da nossa missão. São humanamente impossíveis. Mas sabedores da autoridade do enviador e da qualidade do amparo que temos, não podemos esmorecer em cumprir nosso trabalho. É uma honra para o gênero humano poder ser parte dos planos de Deus.

E então? Você será parte desta grande comissão ou se esconderá vivendo a grande omissão?

Samuel

P.S.: Texto baseado em sermão do Dr. Carlos Osvaldo Cardoso Pinto